
Fotos
4 de Julho - Caminhos de Santiago
3º Etapa: Valença - Pontevedra
A terceira etapa dos caminhos de Santiago que realizamos no sábado 4 de Julho começou a ser preparada oficialmente na segunda-feira anterior com o envio deste mail:
|
"- Coisas banais, são banais, todos as fazem e não têm valor. A têmpera mostra-se na transposição dos limites." Caros amigos, a 3ª Etapa dos caminhos de Santiago é já no próximo sábado. Mas as características desta etapa levam-me a escrever-vos mais cedo que o costume. A distância a percorrer será de cerca de 55Km, nada que já não tenhamos feito, mas as características são diferentes. Ao entrarmos em Espanha o caminho vai oscilar entre percursos em estradas asfaltadas (umas principais outras secundárias) e caminhos de terra com mais ou menos gravilha e com mais ou menos pedras. Até agora temos feito estrada mais ou menos plana. Mas isto vai mudar, vamo-nos deparar com pendentes elevados, quer a subir quer a descer (quer em asfalto quer em terra). Por isso, para a nossa capacidade estou a prever médias de velocidade a rondar os 10Km. Para fazermos 55Km temos de esperar tempos de cerca de 6h em cima da bicicleta e isto sem contar com tempos de descanso e recuperação, tempos para levar a bicicleta pela mão,... Na intranet está publicado o mapa do nosso percurso, como podem constatar, vamos andar frequentemente fora da estrada nacional e logo mais ou menos longe da carrinha de apoio. Por isso, a menos de situações de força maior, só vamos ter contacto com a carrinha de apoio de 10 em 10km. Atenção a este detalhe. Vejam não vos quero desanimar, estou apenas a dizer-vos o que vamos deparar porque quero que se foquem no objectivo: chegar (nem que demore o dia inteiro). Assim peço-vos para: Preparação da bicicleta: é vital que a bicicleta esteja em óptimas condições: principalmente a nível de mudanças e travões. Não se esqueçam de trazer uma câmara de ar suplente e as principais ferramentas para intervir se necessário. Preparação física: Comecem a preparar quanto antes a componente energética e componente de hidratação que referi nos mails das outras etapas: - Nas 48h anteriores à actividade, devemos considerar uma alimentação rica em hidratos de carbono compostos que por atravessarem um certo número de processos metabólicos antes da energia ser libertada a um ritmo lento e regular. Isto torna-os ideais para actividades como o ciclismo, que requerem um fornecimento de energia a longo prazo. Nesta categoria de alimentos consideram-se os cereais, a batata e sobretudo as massas. - A refeição antes da actividade deve conter pão e frutas com teor moderado de fibras. Alimentação durante a Etapa: como se prevê uma etapa muito longa em termos de tempo, a alimentação durante a etapa assume um papel muito importante, cada um deve levar um abastecimento de hidratos de carbono simples porque requerem menos processos, portanto são uma fonte de energia mais imediata, de onde resultam em pontos altos de energia disponível. Exemplos destes alimentos são as barras energéticas ou as sandes com recheios doces (marmelada por exemplo) e as bananas. Hidratação: ao longo do caminho vamos passar por muitas fontes de água fresca, por isso basta trazer na bicicleta uma garrafa com o mínimo de 0,75l, no entanto não nos devemos esquecer que face ao esforço físico o consumo de cerca 1l de água por hora é uma boa estimativa. Regra de ouro: Beber antes de ter sede, comer antes de ter fome. Por razões de segurança o uso de capacete é altamente recomendável e o uso de óculos também. A saída do ASC é às 6:30, por isso para tratarmos da logística das bicicletas peço-vos para cá estarem por volta das 6:15. Por favor não se atrasem que o dia vai ser longo. Até Sábado SM |
As bicicletas deixaram a moleza de passear na carrinha de apoio junto às muralhas da fortaleza de Valença, precisamente no local onde terminamos a segunda etapa. Do alto deste antigo bastião de defesa portuguesa, por entre as ameias, viam-se ao longe os montes que circundam a Ria de Vigo, e que, dentro de pouco tempo tentariam fazer frente aos nossos esforços.
Mas antes de começarmos a fazer o gosto ao pedal, preparamo-nos com o nosso famoso bolo e sumos de fruta, a fazerem a vez do pequeno-almoço, e com as recomendações necessárias para esta etapa: - Façam a gestão do esforço. - Preservem-se. - Nas descidas, não deixem a velocidade tomar conta da situação, desçam de forma controlada. - Façam a gestão do esforço. Nas descidas fora de estrada, distanciem-se da bicicleta da frente. - Preservem-se. - Não sei se já disse, mas façam a gestão do esforço, a etapa vai ser dura.
Logo nos primeiros minutos da nossa aventura, passamos por um marco psicológico importante: cruzamos uma fronteira internacional e entramos em Espanha. Fizemo-lo de uma forma que nos deu muito prazer: cruzamos o rio Minho pela ponte ferro-rodoviária, construída por Eiffel em 1885, uma jóia da arqueologia industrial.
Daí dirigimo-nos para o centro histórico de Tui por ruelas estreitas e íngremes e progredimos até a belíssima Sé Catedral da cidade. Na continuação começamos a descer. O desnível primeiro é vencido por degraus espaçados e depois do túnel do Convento das Clarissas, já fora dos muros da cidadela, por degraus que formavam escadas. Uns passaram por este obstáculo em cima das bicicletas mas muitos preferiam levá-las à mão. Este pequeno troço inicial estava a ditar o mote de toda a etapa: desníveis acentuados e obstáculos que nos forçam a descer do selim.
- Preservem-se.
Logo à frente o primeiro caminho de terra. Um caminho rural, plano, de acesso aos muitos campos de cultivo da zona.
- AAAAlto!! Avaria!!
Um dos elos de uma corrente estava a ceder, mas foi prontamente reparado.
Um pouco mais à frente uma estrada de alcatrão permitiu-nos passar por cima da linha-férrea e da auto-estrada. Mais tarde, no vale do rio Louro voltamos a caminhos de terra que acompanham e cruzam o rio ladeado de matas de carvalhos formando um ambiente de grande beleza. Este troço faz parte da via militar romana XIX que liga Braga a Astorga e na qual, já em tempos, o Clube Ana fez uma caminhada na zona do Gerês onde a via é chamada de Geira.
Ao sairmos deste cenário de conforto, entramos no Polígono Industrial de Porriño e atravessamos a cidade. Já a norte de Porriño em Pedra Pinot, antes de voltarmos aos caminhos de terra, paramos junto à fonte de água que está em frente à capela e fizemos a primeira paragem de abastecimento. O ânimo estava em alta, já tínhamos feito 23Km e o desgaste físico ainda não se fazia sentir.
- Façam a gestão do esforço.
As dificuldades chegaram pouco depois, em Pazo de Mos, tivemos de trepar a Rua dos Cavaleiros, inicialmente uma estrada pedonal, para logo a seguir se transformar numa estrada asfaltada. A subida parecia mais uma parede vertical. Ouviram-se os desviadores das mudanças a engrenar as relações de maior desmultiplicação. Ouvia-se a respiração rápida e ruidosa. O suor escorria pelas faces tensas. Cada um tentava fazer a gestão do esforço, mas a subida era longa e penosa. No cimo tivemos todos de parar para recuperar o fôlego. Este foi o primeiro aviso: - Preservem-se.
Ainda os músculos ferviam da subida anterior, já estávamos a sair do asfalto para entrar na terra para vencer outro pendente acentuado, mas este alem da inclinação também tinha sulcos cavados pela água e muita pedra solta. No cimo tivemos todos de parar para recuperar novamente o fôlego. Depois desta todos começaram a levar a sério o “- Façam a gestão do esforço. - Preservem-se.”
Até ao cimo do monte mais subidas foram vencidas, umas gentis, outras que não deixaram outra solução que não fosse levar as bicicletas pela mão. Lá em cima de repente o horizonte abriu-se e ao fundo contemplamos a ria de Vigo. Estávamos no topo. Daqui até Redondela foi quase sempre a descer. E, se as subidas eram verticais, as descidas eram vertiginosas e introduziram uma tónica refrescante, a deslocação do ar zumbia-nos nas orelhas e os óculos muitas vezes não impediram o lacrimejar dos olhos. Volta e meia os pneus derrapavam em protesto pelo excesso de velocidade aliado à inclinação que os corpos imprimiam às máquinas para poderem curvar. De repente:
AAAAlto!! Avaria!!!
Nova paragem, outra vez uma corrente que tinha feito das suas ao saltar da pedaleira e enrolar-se no eixo. Desta fez foi preciso usar uma pedra como martelo para a soltar.
Neste frenesim, entramos de novo a estrada nacional 550 onde estava o carro de apoio à nossa espera, mesmo a jeito para voltarmos a repor energias e reparar uma roda que resolveu rolar num plano ovalizado.
Em Redondela, entramos, passamos e saímos.
Antes de Árcade perdemos o caminho. Perdemos o caminho é uma maneira de dizer, deixamos de ver o azulejo azul com uma vieira amarela que em Espanha é usado para sinalizar o caminho de Santiago. Tivemos que parar o pelotão e procurar a indicação que afinal, estava mesmo atrás de nós no sítio onde paramos. Retomada a marcha deparou-se-nos mais uma subida daquelas: longa-longa-e-apontada-para-o-céu. Alguns dos nossos intrépidos ciclistas conseguiram supera-la a fazer força nos pedais, outros tiveram que vence-la a pé, mas este era o espírito. Objectivo: - Chegar. Quando? - Mais cedo ou mais tarde. Não interessa! Porque o objectivo é chegar.
Árcade e Pontesampaio estão separadas pelo rio Verdugo que à frente desagua na ria de Vigo. Separadas pelo rio as vilas estão ligadas por uma extensa ponte medieval.
Pontesampaio é o local onde os cães têm o nome dos generais napoleónicos, quando iam a caminho de Portugal travaram aqui duras batalhas. Deste lado do rio, o caminho segue para o cimo de um monte densamente povoado e recortado por um labirinto de ruelas estreitíssimas e inclinadíssimas que para nós nos proporcionou mais uma caminhada.
Do outro lado mais uma descida e mais um monte, a mente acusava o cansaço e já só perguntava: - O que mais está para vir? Felizmente já só faltavam cerca de 10Km. Infelizmente estes seriam os mais duros.
Para início de conversa saímos do alcatrão e entramos num caminho de terra. Primeiro caminho plano, depois a subir. No início da subida, empurrado pela força da gravidade passava um pequeno regato. Passava, porque literalmente cruzava o caminho que recentemente tinha sido limpo de ervas e agora mostrava a terra desprotegida. Onde passava o regato a terra tinha-se transformado em lama.
E mais uma vez tivemos que desmontar, mas agora não para empurrar as bicicletas mas para pegar nelas às costas e passarmos o lameiro. O obstáculo seguinte foi a própria encosta: inclinação acentuada, piso de terra de onde brotavam grandes pedras, apesar das várias tentativas de muitos, as nossas energias já não chegavam para tanto e mais uma vez, as bicicletas subiram sem o constrangimento de carregarem alguém. O cenário é idílico, um caminho coberto por frondosas copas de carvalhos, que projectavam jogos de luz e sombras, apesar do calor do dia e do calor gerado pelos músculos em esforço, o local inspirava frescura e tranquilidade. Apesar de todo o corpo estar ser posto à prova há quase quatro horas, este foi um momento de interiorização, de harmonia entre os nós e a natureza que nos rodeava. E a subida subia e parecia que não acabava mais. Às vezes era menos inclinada para logo a seguir voltar a apontar para o céu.
Mas o nosso intuído era férreo e a dinâmica de grupo inabalável. Armados destes trunfos vencemos a subida.
O ditado popular diz “Tudo que sobe, desce”. E depois de recuperado o fôlego tínhamos de vencer a descida mais difícil, um pendente acentuado com piso de gravilha, cruzado por vários regos de água. Era aqui que tínhamos de aplicar as recomendações “- Nas descidas não deixem a velocidade tomar conta da situação, desçam de forma controlada.” e o “ - Nas descidas fora de estrada distanciem-se da bicicleta da frente.”
Mas uma coisa é dizer ou saber, a outra é o fazer, e nós não fizemos nem uma nem outra e como resultado tivemos direito a três quedas holliodescas com bicicletas descontroladas a derrapar em câmara lenta, ciclistas a voar por cima das bicicletas e a aterrar em cambalhota na gravilha pelo meio de nuvens de pó, tivemos até direito a escoriações limpas com litros de betadine que davam ar de grandes complicações, felizmente nada de sério.
Terminada a descida, o caminho alarga-se correndo campos e vinhas até ao nosso destino – Pontevedra, que atravessamos por estradas pedonais. Do outro lado do rio montamos o nosso merecido pic-nic.
No regresso o embalar da camioneta foi um mestre de hipnotismo. . .
P.S.: Quando lançamos a ideia de percorrermos os caminhos de Santiago, a maior parte dos participantes, nunca tinha percorrido distâncias desta natureza. Nesta terceira etapa não só percorreram 57Km, como percorreram 57Km muito difíceis.
“-Coisas banais, são banais, todos as fazem e não têm valor. A têmpera mostra-se na transposição dos limites.”
Valença - Pontevedra: 57Km, 4h23
Até à próxima.
Clube Ana, 2009